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Tenor cego e autista briga na Justiça pelo direito de fazer concurso
 
Segundo advogado, direção do Coro Municipal de Petrópolis alegou que Saulo Laucas atrapalharia demais músicos

por Paula Autran
13/09/2018 15:42 / Atualizado 13/09/2018 17:13
 

Foto: Cego e autista, Saulo é tenor - Divulgação


RIO
Um concurso para integrar o Coro Municipal de Petrópolis levou a família do tenor Saulo Laucas Pereira, de 33 anos, a brigar na Justiça contra a prefeitura da cidade serrana. Bacharel em música pela UFRJ, Saulo é autista e cego.

Ele ficou conhecido em 2016, quando cantou o Hino Nacional na festa de encerramento dos Jogos Paralímpicos, no Rio. No mesmo ano, fez a abertura de um concerto único do Rock in Rio na Amazônia, o Amazonia Live, cujo objetivo era sensibilizar as pessoas para a importância da defesa do meio ambiente. Lá, interpretou
Canto della terra, do italiano Andrea Boccelli, também cego.
 

Foto: Saulo se apresenta no Amazonia Live - Divulgação/I hate flash


Como adiantou Marina Caruso, em sua coluna, no GLOBO, Saulo teria sido impedido de participar do concurso, que aconteceu em novembro de 2017, sob o argumento de que não entenderia o maestro e atrapalharia os demais músicos. Na semana passada, desembargadores da 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio determinaram que Saulo fosse submetido à avaliação. Ainda cabe recurso.

A família entrou na Justiça em fevereiro deste ano, quando o primeiro magistrado a julgar o caso deu antecipação de tutela, conferindo ao Saulo o direito de fazer a prova. Em abril, no entanto, um outro juiz, ainda em primeira instância, revogou a tutela. Em maio, entrei com o recurso que acaba de ser julgado explica o advogado Josemar Araújo, que também é cego e amigo da família. A gente precisa dar uma resposta ao Saulo. Excluir uma pessoa com deficiência de um concurso é crime.
 

Saulo Laucas: Justiça aceita recurso para que ele faça prova para Coro Municipal de Petrópolis - Divulgação


Em nota, o Instituto Municipal de Cultura e Esportes de Petrópolis diz que a inscrição do candidato foi aceita, mas ele não teria comparecido para fazer a prova:
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"Após a representante legal do candidato ter comparecido ao Instituto e demonstrado que o candidato é cego e estava sem prática do método braile, ficou definido que o método a ser utilizado para a sua avaliação seria de um ‘ledor’ (pessoa que iria ler a partitura a ele). Ele, então, foi notificado de que a prova estava agendada, no entanto, não compareceu à avaliação", diz a nota.

O Instituto afirma ainda que, no trâmite do processo, apresentou suas "comprovações de convocação do candidato para realização da prova", que teriam sido reconhecidas pelo juiz do processo, titular da 4ª Vara Cível de Petrópolis, pelo Ministério Público Estadual e Promotoria de Justiça da segunda instância.

"Apesar destes entendimentos, optou a 5ª Câmara Cível do TJRJ por acolher recurso contra a decisão do juiz, julgamento ainda sub judice", finaliza o documento.

É razoável brigar para fazer uma prova e não comparecer? questiona Araújo. Eles nunca entraram em contato com ninguém da família para fazer esta notificação. Se tivesse sido notificado, Saulo teria ido. Mas eles chegaram a ir a um cartório para dar fé pública a um email que nunca foi enviado.

Segundo Josemar Araújo, tudo começou quando a mãe de Saulo, Vanessa Bianca Pereira, buscou a direção do coro para saber como o filho poderia fazer a prova, já que o edital não falava sobre questões em braile ou da presença de alguém que pudesse lê-las para os candidatos cegos, o que a lei prevê. Depois disso, ela teria recebido um email informando que a banca não teria condições de avaliá-lo.

Disseram que o Saulo não estava apto, mas achei que não deixá-lo fazer o concurso era injusto com ele, que foi rejeitado sem ser avaliado. Por isso contratei o advogado conta Vanessa Bianca, acrescentando que o filho já participou de outros concursos, inclusive internacionais, como um no México, do qual foi finalista. Ele já foi regido por grandes maestros, como Roberto Minczuk e Ernani Aguiar. Eles criaram códigos relacionados com a respiração para reger o Saulo, que tem ouvido absoluto. É só uma questão de estabelecer o código com ele. Cada maestro faz isso de uma maneira.

Sempre deu certo concorda Saulo, animado com a perspectiva de poder finalmente fazer a prova, embora ainda caiba recurso.

Sexto dos dez filhos de Vanessa Bianca, Saulo sempre gostou de música, e começou a estudar piano aos 14 anos. Como falava muito pouco e era muito introvertido, sua mãe imaginou que, se investisse no canto, talvez ele viesse a se expressar melhor.

O professor fez testes com ele e percebeu que sua extensão vocal era muito boa, além de seu ouvido ser espetacular. O aprendizado foi rápido. Ele acabou se graduando em música pela UFRJ e continua até hoje fazendo cursos avulsos.

   
                                             
   
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